Um dia qualquer

Ela estava pensativa, mas a música não a permitia tirar conclusões. Estava simplesmente passando o tempo, não podia dormir e tinha medo de abrir sua agenda. Não seria isso um ato que ela teme o tempo todo? Fugir das responsabilidades? E que ela sempre consegue se superar em seus récordes, mas ela naquele momento preferia isso a abrir sua agenda.
E continuava ouvindo suas músicas, um disco novo, um grupo novo, sensações novas. Quer dizer, nem tão novas, sensações passam a ser constantes depois dos 20, mas a memória a ajuda a renovar sempre. Salve, salve a falta de memória! Quem disse que falta de memória é ruim? Mas essa é outra história, voltemos a falar dela.

Era um dia comum, pessoas comuns mas lhe aconteceu, como acontece a qualquer um num dia qualquer. Aconteceu que ela dançava. Mas ela dançava e percebia que dançar é a melhor expressão dos seus sentimentos. E o moço percebeu que ela dançava e foi aí que começou:
-Boa noite moça, o que você está dançando?
-Boa noite - ela sorri com satisfação - estou dançando a quinta!
O moço bonito sentado à sua direita, tem uma expressão de estranheza, que logo transparece curiosidade, teria ouvido mal?
-Como assim a quinta?
Ela continua sorrindo, e percebe que não pode ser tão ela, pois não falam a mesma língua.
-São os movimentos de hoje, está vendo aquela moça ali? - Ela aponta para uma moça fora do ônibus, num ponto de ônibus - Quando ela olha no relógio e depois olha aquele moço. (E aponta para o outro lado um homem ansioso olhando atentamente o sinal de transito vermelho) Isso fica ritmado, e é estranhamente gostoso sentir os ritmos na quinta, de vez em quando me empolgo...
Ele não entende muito bem, mas sorri e olha para a moça no ponto de ônibus com seu relógio de pulso. Mas o ônibus parte e a perde de vista.
-Você não prefere ouvir uma música?
-Na maioria das vezes, mas quando não há música a gente improvisa.
-Você toca alguma coisa?
-Não, apenas sinto. Soa egoísta isso né?
Ele sorri, provavelmente está de frente a um ser estranho, ou melhor do lado, mas é estranho também como aquele ser o prende e desperta cada vez mais sua curiosidade e quando ele decide perguntar seu nome ela se levanta dando o sinal pedindo a parada do ônibus. Ela despede e ele sente. Sente seu movimento, é como se ela dançasse, ele sente um perfume, mas é um perfume muito suave que vai embora no mesmo momento deixando saudades, sente o ritmo mas ela desce e ele sente. Sente que é a última vez que a vê.

Comentários

Salve Jorge disse…
E ele só não entendeu.. porque ela não disse toda a verdade, afinal tanto ela toca.. e o tocou de fato...

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