Boi de janeiro

A menina ouviu o batuque lá da rua, esqueceu-se de seus brinquedos que se esparramavam pela salinha e já saia correndo descalça se esbarrando nas paredes e todos obstáculos que só estavam lá pra fazer da sua chegada mais triunfante. Seus olhinhos se enchiam d'água, o coração faltava pular, assim como seus pezinhos que mesmo sem muita coordenação já seguia o ritmo dos tambores que rufavam anunciando a chegada dele. E cadê ele? A criançada ao redor num empurra empurra, ia se chegando cada vez mais. Pequenininha, tentava de tudo, subia em árvore, em poste, no meio fio, no banquinho da praça, atropela um, atropela outro, mas só via a quantidade de cores que se esbaldavam em sua frente e ouvia, (e como ouvia) os tambores (que tambores!).
A criançada se afastava, era certo, era ele! O boi apareceu. Esse ano ele era sem dúvida mais bonito que todos os 0utros anos! Aquele boizão preto, com roupa colorida fazendo a festa ficar realmente completa. Que medo que ela tinha daquele boi! Mas ao mesmo tempo ela era viciada por aquela energia dele. Como ela queria dançar ao lado do boi, e ao mesmo tempo como ela tinha medo do boi!
O boi de janeiro a encarou, ela sentiu as pernas se desmancharem, e sabe-se lá como, saiu correndo feito foguete, não sentiu as pernas, não ouvia mais os tambores, apenas seu coração que parecia um tambor interno, o mais alto de todos.
Quando olhou para trás estava ali o boi correndo em sua direção, ele só não soltava fogo pela fuça porque era de pano, mas se estivesse sonhando com certeza tinha fumacinha saindo. O que significa que não era sonho, pernas pra que te quero, canelinhas cinzas em ação.
Quando deu por si, já estava longe, longe do boi, da gritaria da criançada, e até do som dos tambores, exceto aquele que estava ali dentro, e esse parecia mais alto do que antes. Não via mais as cores, não precisava subir nem descer, já estava no alto e também no baixo. Sentia suas pernas não moles como antes, nem duras como nunca foram, apenas livres, como sempre as quis. Se viu a girar, mas ninguém a via, ou pelo menos não parecia haver mais ninguém para vê-la. Ela não sabia nem queria saber mais o porque, o onde, o quando ou o quem.
Ela apenas era e estava.

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