Estranho dia para se ter alegria

Estranho dia para se ter alegria, sábado corrido, não fujo das minhas responsabilidades, a lingua se embola de manhã com um francês arranhado, cabeça a mil, semana de provas comendo solta, pezinhos cansados, mas dança, dança pouco com senhor, ensina e aprende, unha vizinha do dedo importante sofre, senhor sabe dançar mas sabe chutar também, foi apenas um erro conseqüente, até então dia comum, sábado comum, cansaço comum.
Fora do comum só a negligência do sistema de sair 5 minutos mais cedo, por isso poupo 30 minutos de espera.
O reencontro:
uma antiga professora de biologia, 2º ano, colégio Municipal Marconi. A quatro anos atrás não seria reencontro, seria mais um dia de rotina, às 7 da matina, para ter uma aula chata sobre plantas. Depois a gente descobre que nem era tão chata assim.
O colégio vai acabar.
Todos os professores ficarão por aí, em qualquer outra escola que não temos o mínimo de intimidade.
O sistema vai mudar. De um colégio livre para um CEFET.
É um bom uso sim, a escola é de uma estrutura espetacular. Mas minhas lembranças vão ficar... sendo só lembranças. O uniforme, o símbolo, as cores, os professores chatos, os professores bacanas... tudo ficará apenas na memória de quem viveu.
Vocês não conhecem, não conheceram... não vão conhecer.
Um colégio livre, uma escola.
Várias lembranças.
O primeiro beijo na escada atrás da escola.
O jogo de RPG.
O tombo no campinho que toda a escola viu.
Os jogos de basquete antes da aula, durante a aula, no intervalo de aulas e depois da aula.
O ki-delícia que eu nunca tinha dinheiro para comprar.
O jogo de futebol.
O deslocamento do tornozelo.
O trabalho de física que me mandaram calar a boca.
A briga com o professor de matématica.
A briga com o professor de português.
A reunião que chamaram minha mãe e vários professores.
Os casais se pegando nos corredores da biblioteca.
A comida gratuita: sopa, arroz, docinho de banana, biscoito, cachorro quente...
A entrevista para o jornal.
A menina magrela esquista que era minha melhor amiga.
O negão bonito.
A fase roqueira: bandana do nirvana e cordão preto.
O dia em que pixei.
A fase de jogar peteca.
O trio parada dura de calça balão azul. Diga-se de passagem eu e minhas irmãs.
O vestiário feminino e as revistas da avon.
O correio elegante.
O dia em que entrei no atletismo.
O dia seguinte em que competi.
O sonho de ser atleta.
O sonho de entrar para a CEMIG.
O sonho de passar no vestibular.
O sonho de ficar com o tiaguinho e o tiagão. Diga-se de passagem que esse sonho era comum entre todas as garotas.
O auditório chique que tinha cadeiras almofadadas.
A aula nos computadores em que não fazíamos nada.
As aulas de sociologia que eu queria derrubar a pilastra que ficava no meio da sala.
A aula de sociologia comendo solta e eu pensando se dava para cortar um pedaço do pilar.
A aula de sociologia e eu tendo a brilhante idéia de que deviam ter feito o pilar com algum material transparente.

Podem inventar a tecnologia que for, mas nossa memória ainda é o melhor entretenimento. Tão bom quanto o filme da nossa vida só mesmo a lembrança dele.

Estranho dia para se ter alegria.

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