Ninguém escreve a ela, nem ao coronel.

"Já deve estar com o nosso Agustin - Balbuciou - Tomara que não comente as nossas dificuldades desde que morreu."

E é assim que a mulher do coronel nos introduz em seu mundo de aparências. Não a julgarei. Recentemente um medo vai e vem: como seguirei se não continuar engenhando projetos? Não eu solamente, mas como será minha imagem solitária vagando por esse mundo de fotografias? Rogaram praga, queria não acreditar, mas talvez rogaram. Vou saber em 2015. Dilma foi eleita, você ficará desempregada. Não é uma verdade absoluta, mas a Veja me amedronta. Li uma reportagem hoje pelo G1 (e olha que foi o G1 da Globo) e agora pouco li o mesmo assunto pela Veja... de repente o céu se fechou, as nuvens se escureceram... o Brasil vai acabar... Mantega, não faça isso comigo!
Dilminha, não nos deixe tão ansiosos, quem será o ministro da fazenda? Nos dê uma prévia Dilmãe!

E voltando até o mundo das aparências, até que ponto eu sou o que acho que sou ou o que os outros pensam que sou? O quanto essas duas imagens se cruzam?

Hoje mais uma discussão, menos uma amiga. Eu costumo saturar as pessoas e querer insistir... mas hoje realmente acho que me saturei. Sem a mínima vontade de me esforçar e adular. Ela se mostrou irredutível: você só fala bobagens! Tudo por que queria abrir mão de comprar mercadorias chinesas... vai entender...

"Se convença de que a dignidade não se come" Ela ainda não se convenceu, comendo tudo enquanto procrastina e evita admitir que fracassou em seus projetos! Sabe que sempre é tempo de seguir buscando. Mas como o coronel, acaba esperando. E está sempre esperando que lhe façam digna sua espera.

Dignidade não é isso, e eles não sabem disso. Preferem a espera. Mas não podemos julgá-los, o coronel e sua mulher estão passando fome, estão esquálidos, não dormem bem e nesse cenário não se pensa bem. Ela? Ela come além, dorme mal por que espera e esperando que algo lhe aconteça ao longo do dia sem que ela faça acontecer o tempo só passa e nada se passa.

Realismo fantástico não diria para essa obra do Gabo. É realismo puro nesse caso. Talvez a cultura do exagero, onde se pinta o máximo da tragédia e o máximo do orgulho num mesmo cenário. Talvez isso seja fantasioso, mas não me atreveria dizê-lo. Há sim muita tragédia e muito orgulho vivendo juntas.




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