Literaturiando: As intermitências da morte
Planos inacabados, paixões mal-resolvidas, voltei ao Saramago e dessa vez mais levemente. Seguindo o ritmo da filosofia sobre o absurdo fui de "As intermitências da morte" após o longo período de abstinência seguido do caos branco, a cegueira que me pertubou e incentivou.
Eu que sou pessoa de poucos aprofundamentos, pessoa de supercialidade extrema, me considero admiradora do Saramago mesmo tendo lido apenas o "Ensaio sobre a cegueira" até o final e de ter ido em uma conferência que ele fez um pouco depois do lançamento desse, onde conheci a dona morte, que não sendo a Morte, é um tanto mais agradável.
Na verdade, lembro-me de ter ficado deslumbrada com Saramago naquele primeiro momento, e lembro-me de ter iniciado na "Caverna", "O conto da ilha desconhecida", "O evangélio segundo Jesus Cristo" e ainda "Memorial do Convento", mas realmente não me lembro da história de nenhum e me frusto por isso.
E deixando um pouco de rodeios e partindo para o que interessa, esse último livro que li é do tipo que a gente pode ler em pé em um ônibus lotado e se divertir ainda assim. Saramago me surpreende com sua criatividade e coragem para fazer devaneios com análises filósoficas sobre situações totalmente impossíveis. Nesse caso ele cria um cenário inusitado: a partir do começo de um certo ano em um certo pequeno país não se morre mais.
É iniciado então com a reação de uma pessoa que recebe uma notícia dessas e pensa: ótimo! Que é provavelmente a primeira reação de todos. Mas a situação começa a ficar crítica depois que percebe-se a não ocorrência do que deveria ser a fatalidade natural por algumas semanas. E como não deveria deixar de ser, Saramago começa cutucando a Igreja: "Sem morte não há expectativas de ressurreição e sem ressurreição não haverá igreja". Não exatamente nessa simplicidade, mas realmente a Igreja existe por que há um mistério após a morte e o mistério faz crescer a fé, não havendo morte, não há de haver, portanto, fé e aí sim: sem fé não há Igreja.
É iniciado então com a reação de uma pessoa que recebe uma notícia dessas e pensa: ótimo! Que é provavelmente a primeira reação de todos. Mas a situação começa a ficar crítica depois que percebe-se a não ocorrência do que deveria ser a fatalidade natural por algumas semanas. E como não deveria deixar de ser, Saramago começa cutucando a Igreja: "Sem morte não há expectativas de ressurreição e sem ressurreição não haverá igreja". Não exatamente nessa simplicidade, mas realmente a Igreja existe por que há um mistério após a morte e o mistério faz crescer a fé, não havendo morte, não há de haver, portanto, fé e aí sim: sem fé não há Igreja.
Saindo da análise a respeito das consequências no setor religioso, ele parte para uma análise mais econômica. Num sistema capitalista, toda nova situação em uma sociedade terminará refletida, inevitavelmente, em um setor da economia. Falemos então da micro-economia, e a consequência direta nesta da ausência da morte é o setor funerário. Que acontece com as empresas funerárias quando não há mais o produto principal para sua atividade? Sem defunto, que poderíamos nesse caso chamar de "recurso" não há prestação de serviços e portanto, não há honorários. O que acontece nesse caso, é a inusitada situação de "escassez de recursos", mas como todo bom estudante de economia sabe, o indivíduo procura sempre esgotar suas possibilidades de mudar de situação para uma melhor, e as empresas funerárias não vão se arriscar fugir desse preceito básico de sobrevivência de mercado e portanto, tomaram uma medida que resolvesse em parte a falta de recursos: buscaram recursos alternativos! Não, não foram defuntos sintéticos, eles simplesmente começaram a enterrar animais de estimação. E não pense que conseguiram inverter a ordem natural da lei da oferta e demanda, não foi por que de repente começou a ofertar enterros de animais que a demando surgiu. Mas partir de uma nova legislação que exigia que todos os animais devessem ser enterrados após seus últimos suspiros, fizeram com que a demanda acontecesse.
Não satisfeito com a situação criada, Saramago propôe uma nova, a morte (com letra minuscula) se mostra uma entidade sensibilizada com a opinião dos humanos a respeito dela. Mostra sua presença por meio de uma carta roxa e pede silenciosamente que as pessoas gostem dos seus serviços, que elas acreditem que a morte é tão importante quanto a vida! E ele chega a humanizar tanto a figura da morte, a ponte de fazê-la também amar, no sentido mais humano dessa palavra e assim, com a satisfação sexual da morte, << No dia seguinte, ninguém morreu>>.
PS: Sim, eu Roseei no literaturiando.
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