Onde está a Segunda? [contém spoiler]
Eu sempre falei que não era muito chegada em ficção científica e evitava ver qualquer série ou filme desse gênero. Mas eis que na minha última viagem com propósitos de intercâmbio cultural, quando fiquei hospedada por uma semana com uma família americana e também com outra workawayer Peruana, fui pega de surpresa assistindo dois episódios da série Black Mirror e só digo isso: uauuuu da hora!
Nessa sequência acompanhei toda a série e diminui muito o preconceito com ficção cietífica, mas calma lá ao me indicar qualquer filme... não perdi totalmente o preconceito ainda... infelizmente. Meu melhor amigo de indicações é o próprio Netflix e ele estava incansavelmente me recomendando assistir "Onde está a Segunda?" e cedi esse fim de semana.
Hoje tentei resumir o filme para um casal de amigos e pareceu até um filme bobo, mas o que está por trás do roteiro surrealista (pelo menos para os dias de hoje), é a discussão ética a respeito do quanto o estado deve ou não intervir nas decisões dos indivíduos, além de questões não muito exploradas no filme mas que justificaram a existencia daquele cenário de superpopulação: consequências do aquecimento global e aumento de consumo de alimentos transgênicos. Parece surrealista agora?
Esse é um filme interessante para quem gosta de ação e suspense, mas o que me pegou foi a reflexão ética que nos força a ter: [ATENÇÃO PARA SPOILER!!!!]
Até onde o estado deveria ir na intervenção da liberdade do indivíduo em prol do benefício comum da sociedade? Como garantir que uma medida seja aplicada a todos de forma igualitária se os cidadãos não são iguais? Até onde se justifica a ação de uma mãe para proteger seus filhos que ainda não nasceram se para protegê-los seria necessário sacrificar a vida de outras pessoas? Considerando que uma pessoa vai morrer em breve, de uma forma ou de outra, é justificável antecipar essa morte se essa antecipação salvará a vida de 3 pessoas? Muitas questões, não é mesmo?
Não tenho certezas e não tenho respostas, o que vou me propor aqui são conjecturas caso eu estivesse no lugar de um gestor público que deveria decidir sobre o plano para resolver o cenário
Penso que o estado deve garantir a ordem social e deveria sim intervir com uma política de controle populacional, o que não implicaria em assassinar indivíduos que nasceram gêmeos. Ok, mas o cenário é que muitos estão nascendo gêmeos por mudanças genéticas. O que fazer? Não consigo pensar em uma solução não cruel, ou que interfira diretamente na liberdade individual, então seria o caso de não permitir que essa situação ocorra, fazendo um controle populacional antes que se chegue nessa situação. Mas, voltemos: você é um político que recebeu em seu governo esse cenário, está havendo escassez de recursos, quase toda gravidez nascem gêmeos, a população está crescendo.
Minha solução seria alterar o funcionamento familiar. Sim, isso implicaria interferir na liberdade individual em prol da sociedade mas não seria necessário matar gêmeos, seres inoscente. Sim, eu manteria a regra de um filho por pessoa, não significa um filho por casal, pois indivíduos separados não deveriam fazer mais filhos. Parece cruel, mas entenda, é uma medida emergencial para controlar um problema social. E se um indivíduo tem gêmes ou trigêmeos ou enfim... vc entendeu. Nesse caso os demais bebês passam a ser filhos dos parentes mais próximos sem filhos. Sim, estaria intervindo no direito do cidadão de ter seu próprio filho, mas mais uma vez, é uma medida emergencial até que se consiga ter o controle populacional. Daí entramos naquela discussão sobre instinto materno, chega uma hora que a mulher tem necessidade de ter um filho, seria isso instinto mesmo? Tenho minhas dúvidas se não seria mais cultural do que biológico. Podemos sim viver sem um filho, ou mesmo cuidar de um filho que não é nosso, até por que acredito que a mulher não é dona de um filho, ela apenas gere e cria para o mundo, por que não criar um filho "do mundo" "para o mundo"?
Mas veja bem, não estou aqui levantando a bandeira de intervenção do estado nessas causas num cenário atual, pois é necessário. As políticas que o estado deve tomar é justamente para que no futuro situações como essa não sejam necessárias. De que forma? Dando consciencia aos seus cidadãos, garantindo o acesso igualitário dos recursos de alimento, saúde e educação. Dessa forma o próprio indivíduo conseguirá decidir a respeito das suas possibilidades de gestação.
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