O Evangelho de Saramago

Me lembro bem da nova biblioteca do colégio. Quando reconto essas lembranças há quem diga que eu era nerd. Nunca fui nerd, não legítima. Mas a verdade é que a reforma da biblioteca me deixou maravilhada. Saímos daquele submundo de velharias no subsolo do colégio para o primeiro andar, muito mais iluminado, muito mais acessível. Com a reforma da biblioteca vieram também novos livros e foi ali que descobri Saramago. Ai Saramago... como me encanta!

Nunca tinha ouvido falar dele, adoro pegar livros pela capa. Não só a capa, mas o título. Adoro livros novos e com títulos interessantes. Foi aí que cheguei no Ensaio sobre a Cegueira. Esse título não é demais? Lembro-me de estar deitada no sofá da sala e vidrada na história da cegueira branca. - Kika, vem almoçar! - Tô indo! O clássico "tô indo" de quem não tá nem indo nem pensando em ir. Se não me engano me custaram apenas quatro dias para devorar o livro inteiro. Ele não tinha pontos!! Era impossível parar... mas a gente tinha que sobreviver, comer, dormir, ir ao banheiro... ah e frequentar as aulas...

Mas daí que terminei o "Ensaio" totalmente apaixonada pelo Saramago e queria mais... tinha "memorial do convento", "A Caverna", "Histório do cerco de Lisboa" e ele, o cujo, sim, já ouvi falar sobre esse livro! "O Evangelho Segundo Jesus Cristo". Me lembro de ter intenções no outros livros, acho que cheguei a começar a leitura de todos, mas não foram pra frente, não me lembro bem... Mas o Evangelho, bom, estava eu no meu 1º ano do colégio, não me lembro bem se já havia crismado ou estava a fazer a crisma. Mas minha família era católica, toda a família ía às missas todos os Domingos, ok, isso não é ser muito religiosa mas o fato é que minha avó era e é muuuuuuuito religiosa, muito católica. E não sei por que motivo ou circunstância ficou sabendo da minha leitura:
- Kika, isso é uma obra do diabo!
E falou mais um monte de coisas, não me tirou a vontade de ler, mas resolvi interromper a leitura por três motivos:
1 - Não queria enfrentar minha avó;
2 - Queria entender um pouco mais a versão oficial (a bíblia) para retomar a "leitura diabólica";
3 - O livro tava difícil para C#$%¨&¨*&

Eis que 12 anos depois concluo meu procrastinado projeto de leitura. Nesses 12 anos tentei sim entender um pouco mais sobre a bíblia. Iniciei tentando ser auto-didata, mas não cheguei nem ao episódio do apocalipse. Depois frequentei algumas células, também não foi muito pra frente. A que mais me prendeu acabei desencantada quando uma passagem nos levou a discussão do homossexualismo e sobre o aborto. Sobre enfrentar minha avó, os 12 anos a mais de experiência me ensinaram que existem assuntos com os quais não devemos discutir com determinadas pessoas. Não que elas estejam erradas e a gente certa, mas simplesmente não há benefícios com as discussões. Portanto, não há necessidade de enfrentar minha avó. Sobre o livro ser difícil pra c*&¨%$(*, não vou dizer que ele se tornou mais fácil após 12 anos, não foi minha experiência que fez isso. Mas já enfrentei O Grande Sertão: Veredas e aprendi que pararmos uma leitura por ela estar difícil pode nos privar de conhecer a melhor obra que você já leu em toda sua vida.

E Saramago continua me encantando. Como disse muito bem Maiquel Rohrig [1], Saramago utiliza a linguagem literária para apresentar sua visão de mundo e recriar o passado, segundo sua perspectiva. Considerando os poucos livros que já li dele (Ensaio sobre a Cegueira, Intermitências da morte e o Evangelho) essa afirmativa é muito evidente quando falamos do Evangelho.

Mais uma vez retomo minha paixão por Saramago, é surpreendente como ele cria e recria tantas passagens com uma riqueza de detalhes e de pensamentos enraizados sem deixar de lado o romance. No caso do Evangelho, descubro que podemos rotular esse de "romance paródico".

Minha avó tinha sim suas razões de condenar a leitura de uma adolescente em processo de confirmação de seus votos cristãos à entidade senhora Igreja. Não que eu concorde com ela, mas entendo suas preocupações.

O que torna mais "diabólico" para os católicos nesse romance é a inversão dos papeis de Deus e o Diabo. Saramago apresenta Deus como o vingador, orgulhoso e incoerente, enquanto pinta o Diabo como o oposto de Deus e esse sim defensor do amor entre os homens. Segundo Saramago Deus quer que o Diabo continue trazendo as maldades do mundo pois só assim ele poderia continuar "fazendo o bem", pois se não há mal não há bem.

Devo admitir que muito que é escrito no Evangelho faz muito mais sentido do que já houvi em todas as minhas frustradas tentativas de entender a história (ou estória) bíblica.

[1] Rhorig, Maiquel - Elementos da poética de Saramago, Abril 2014. Acessado em 11 de Dezembro de 2014 pelo link:  http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/101650/000929988.pdf?sequence=1

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