O Surto
Isso já estava para acontecer a algum tempo, a situação durou mais do que devia e ela já tinha percebido que estava insustentável.
Já tem um tempo que ela se olhava e não se via, via e não se reconhecia. Era mãe metendo o bedelho, amigas rotuladas, namoros irreais, atitudes padrões.
Como já era de se esperar, surtou.
E como já surtou mesmo, vamo lá terminar o que se começou.
Triste ficou quando soube que umas simpáticas meninas não gostam dela, é uma pena, a partir daí foi-se abrindo dúvidas de outras simpáticas pessoas que possivelmente não gostavam dela também, isso não é saudável, falei pra ela, se der importância para isso, não vai viver sua vida, vai viver a dos outros.
E foi assim que a semana do prazer se estendeu, ao fim dela veio o início da semana do desespero e ao fim dela: O Surto.
Saiu andando só, era noite e era quase feriado, mas quis sair só para canto nenhum.
Entrou na primeira Igreja aberta, a missa havia terminado e ela ficou aliviada, não queria ouvir o padre, queria somente estar na Igreja. O coral ainda cantava as últimas músicas e os fiéis se dirigiam para a porta, parecia que era hora de sair, não de entrar. Mas entrou mesmo assim, dizem que a Igreja é a casa de Deus e é nossa casa, devia ser a casa dela também e ela queria entrar oras. Entrou e viu uma imagem de braços abertos, acreditou que poderia ser acolhida ali, olhou para ele, para suas marcas nas mãos, devia ser a imagem de Jesus, não sabia bem quem era, se era seu pai, seu companheiro, seu irmão, mas foi uma pessoa boa. Ela sempre reza para ele, mas ali em frente aquela imagem parecia uma pessoa desconhecida, não sentiu que ele era aquele que sempre a ouvia em seus desesperos. Ajoelhou, talvez assim ele a reconhecesse, mas nada, ela continuava se sentindo uma pessoa estranha diante de uma imagem. Pediu luz e pediu para que não fizesse nenhuma besteira, se perguntou o que fazer e onde ir afinal. Ela não ouvia nada. O coral terminava a última música e ela deu as costas para a imagem. Se dirigiu para a porta, olhou uns quadros, umas imagens daquele mesmo Jesus, mas com uma expressão diferente, nas imagens ele sofria e carregava uma cruz. Pensava ela: por que você fez isso? Do que valeu? Não merecemos isso. Todo o sacrifício que dizem que você fez pareceu em vão. O que tudo isso significa?? Mas era tudo vago, nada parecia ter sentido. Inclusive suas pernas já tinha perdido o sentido, não voltou para casa que era o caminho da esquerda, foi para a direita e parou no ponto de ônibus. Se alguém lhe perguntasse: qual onibus está esperando, ela não saberia o que dizer. O primeiro que passou ela pegou, já era 22 horas e não tinha lugar para ir nem motivo. No mesmo ônibus entraram pessoas com instrumentos, de repente quis ouvir música, resolveu descer quando eles descessem. Desceram em frente a uma casa de cultura, mas estava fechada, eles ficaram ela seguiu para lugar nenhum. Andou na região dos hospitais, enquanto ela estava ali andando sem rumo nem direção, pessoas estavam sofrendo, a região dos hospitais não para nem as 23 horas de um dia véspera de feriado. Ela quis visitar alguém, mas não tinha ninguém para visitar, não deixaram ela entrar, não era horário de visita, ainda mais para quem não tem quem visitar. Ela seguiu, para onde? para lugar nenhum. Passou por ruas largas, escuras e com canteiro central. Ela estava no centro do mundo e pessoas dormindo na margem dele. Estava frio e uma família deitada em um papelões, estava tudo errado.
Um homem olhou pra ela, sentiu medo, saiu do centro. Ela andava só, mas não buscava prazer e dinheiro, ela buscava nada. Ele deve ter entendido ou aquele homem da imagem ainda tinha suas mãos sobre ela.
Seguiu para lugar nenhum.
Havia decidido seguir para uma casa de shows que sempre quis conhecer, queria ouvir música, mas se perdeu, não chegou onde achou que chegaria. Ficou. Parou no ponto de ônibus e mesmo as 23h30 pegou outro busão e seguiu... para lugar nenhum.
Estava um pouco cansada de andar, descansou um pouco no ônibus até que resolveu perguntar ao trocador: Moço, para onde ele vai agora?
O onibus a levaria para Venda Nova, os moradores de BH sabem, Venda Nova não é lá muito perto... deu o sinal e desceu.
Continuou a caminhada, para lugar algum.
Havia um cinema ali perto que possuía sessão às 24h, foi para lá. Mal sabia ela que naquele dia excepcionalmente essa sessão não haveria. Deu fome e estava frio. Ótimo dia para tomar caldo de feijão. Pegou o ônibus de volta para casa e parou num bar que tinha caldos. Ligou pra ronda e voltou de moto, já estava cansada.
Chegou e dormiu. O dia de surto terminava como um dia qualquer.
E chega de dias qualqueres... a situação chegava no fim.
Já tem um tempo que ela se olhava e não se via, via e não se reconhecia. Era mãe metendo o bedelho, amigas rotuladas, namoros irreais, atitudes padrões.
Como já era de se esperar, surtou.
E como já surtou mesmo, vamo lá terminar o que se começou.
Triste ficou quando soube que umas simpáticas meninas não gostam dela, é uma pena, a partir daí foi-se abrindo dúvidas de outras simpáticas pessoas que possivelmente não gostavam dela também, isso não é saudável, falei pra ela, se der importância para isso, não vai viver sua vida, vai viver a dos outros.
E foi assim que a semana do prazer se estendeu, ao fim dela veio o início da semana do desespero e ao fim dela: O Surto.
Saiu andando só, era noite e era quase feriado, mas quis sair só para canto nenhum.
Entrou na primeira Igreja aberta, a missa havia terminado e ela ficou aliviada, não queria ouvir o padre, queria somente estar na Igreja. O coral ainda cantava as últimas músicas e os fiéis se dirigiam para a porta, parecia que era hora de sair, não de entrar. Mas entrou mesmo assim, dizem que a Igreja é a casa de Deus e é nossa casa, devia ser a casa dela também e ela queria entrar oras. Entrou e viu uma imagem de braços abertos, acreditou que poderia ser acolhida ali, olhou para ele, para suas marcas nas mãos, devia ser a imagem de Jesus, não sabia bem quem era, se era seu pai, seu companheiro, seu irmão, mas foi uma pessoa boa. Ela sempre reza para ele, mas ali em frente aquela imagem parecia uma pessoa desconhecida, não sentiu que ele era aquele que sempre a ouvia em seus desesperos. Ajoelhou, talvez assim ele a reconhecesse, mas nada, ela continuava se sentindo uma pessoa estranha diante de uma imagem. Pediu luz e pediu para que não fizesse nenhuma besteira, se perguntou o que fazer e onde ir afinal. Ela não ouvia nada. O coral terminava a última música e ela deu as costas para a imagem. Se dirigiu para a porta, olhou uns quadros, umas imagens daquele mesmo Jesus, mas com uma expressão diferente, nas imagens ele sofria e carregava uma cruz. Pensava ela: por que você fez isso? Do que valeu? Não merecemos isso. Todo o sacrifício que dizem que você fez pareceu em vão. O que tudo isso significa?? Mas era tudo vago, nada parecia ter sentido. Inclusive suas pernas já tinha perdido o sentido, não voltou para casa que era o caminho da esquerda, foi para a direita e parou no ponto de ônibus. Se alguém lhe perguntasse: qual onibus está esperando, ela não saberia o que dizer. O primeiro que passou ela pegou, já era 22 horas e não tinha lugar para ir nem motivo. No mesmo ônibus entraram pessoas com instrumentos, de repente quis ouvir música, resolveu descer quando eles descessem. Desceram em frente a uma casa de cultura, mas estava fechada, eles ficaram ela seguiu para lugar nenhum. Andou na região dos hospitais, enquanto ela estava ali andando sem rumo nem direção, pessoas estavam sofrendo, a região dos hospitais não para nem as 23 horas de um dia véspera de feriado. Ela quis visitar alguém, mas não tinha ninguém para visitar, não deixaram ela entrar, não era horário de visita, ainda mais para quem não tem quem visitar. Ela seguiu, para onde? para lugar nenhum. Passou por ruas largas, escuras e com canteiro central. Ela estava no centro do mundo e pessoas dormindo na margem dele. Estava frio e uma família deitada em um papelões, estava tudo errado.
Um homem olhou pra ela, sentiu medo, saiu do centro. Ela andava só, mas não buscava prazer e dinheiro, ela buscava nada. Ele deve ter entendido ou aquele homem da imagem ainda tinha suas mãos sobre ela.
Seguiu para lugar nenhum.
Havia decidido seguir para uma casa de shows que sempre quis conhecer, queria ouvir música, mas se perdeu, não chegou onde achou que chegaria. Ficou. Parou no ponto de ônibus e mesmo as 23h30 pegou outro busão e seguiu... para lugar nenhum.
Estava um pouco cansada de andar, descansou um pouco no ônibus até que resolveu perguntar ao trocador: Moço, para onde ele vai agora?
O onibus a levaria para Venda Nova, os moradores de BH sabem, Venda Nova não é lá muito perto... deu o sinal e desceu.
Continuou a caminhada, para lugar algum.
Havia um cinema ali perto que possuía sessão às 24h, foi para lá. Mal sabia ela que naquele dia excepcionalmente essa sessão não haveria. Deu fome e estava frio. Ótimo dia para tomar caldo de feijão. Pegou o ônibus de volta para casa e parou num bar que tinha caldos. Ligou pra ronda e voltou de moto, já estava cansada.
Chegou e dormiu. O dia de surto terminava como um dia qualquer.
E chega de dias qualqueres... a situação chegava no fim.
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