IDA


Quando a tia disse "você é judia" logo pensei: putz! Mais um filme sobre o holocausto! Mas logo logo o filme nos convence com toda sua vagareza, todo seu silêncio, o clima e a melancolia de que essa uma ferida prestes a se abrir e apesar do plano de fundo, não é mais um filme sobre o terrível episódio histórico do holocausto. É um filme sobre uma noviça que não apenas não conhece nada sobre as dores e delícias do mundo mas também não conhece nada sobre sua origem e toda dor de sua história. Sobre a possibilidade que lhe foi permitida de conhecer e sobre o que ela escolheria pra si antes de confirmar os votos para se tornar uma freira. O roteiro amarrou muito bem a história, pois ela em seu conhecimento ínfimo sobre fazer escolhas não poderia despertar repentinamente o desejo de viver além do convento, já que ali vivia bem. Eu sempre disse isso sobre minha hamster chines que só conhecia sua gaiolinha e o que dávamos a ela para comer. A ignorância é chave da felicidade. Então já que Ida não poderia ter esse desejo repentino, deram lhe essa orientação e sem muita empolgação ela o fez. Descobriu com sua tia uma pequena amostra sobre a vida fora do convento, tia essa cuja personalidade se opõe claramente à da Ida: regada à álcool, sexo, cigarros e música. Era uma mulher realmente inteligente (juíza), bonita e com ideais de luta. Mas que se sentia vazia e em conflito interno permanente, nunca se perdoou pelo futuro de seu filho. É a tia quem nos convida para as reflexões mais intensas do filme: "como você pode considerar os votos sendo sacrifícios se você nunca experimentou o pecado e portanto abdicá-los não pode ser um sacrifício", "você não tem medo de que conhecendo aquele lugar pode perceber que Deus lá não existe?" 
A fotografia em preto e branco é sem dúvida o grande destaque do filme, deixando-o bonito e real. E despertando a atenção até de leigas como eu. Provoca sentimentos inexplicáveis, tal como me tocou duas cenas em especial: a casa dos pais de Ida e a imagem dos três andando sentido à floresta e a Ida para esperando a tia. É um pouco incômodo acompanhar essa melancólica noviça, mas é um personagem fiel e surpreendentemente interessante.


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